Expedição “Socotra, mistérios e poesia”
- kaike Nanne
- 24 de jan.
- 4 min de leitura
Atualizado: 27 de jan.
A árvore com poderes mágicos
Frequentemente descrita como “o lugar mais extraterrestre da Terra” em razão de seu bioma fabuloso e das florestas da árvore conhecida como sangue-de-dragão, a ilha de Socotra fica no Iêmen, na confluência entre o Oceano Índico e o Mar Arábico.
A narrativa mítica dá conta de que, em tempos remotos, um dragão faminto e poderoso atacou um elefante gigante para beber seu sangue. Durante a luta feroz, o elefante, ao cair mortalmente ferido, acabou esmagando o dragão com o peso de seu corpo.
O sangue de ambas as criaturas se misturou e encharcou o solo da ilha. Assim, brotaram da terra as primeiras árvores sangue-de-dragão. A resina vermelha que corre no seu tronco é o sangue eterno dos dois animais míticos.
Há outras histórias relacionadas à árvore. Para muitos dos Socotri, o povo originário da ilha, a espécie não é apenas uma planta, mas um ser com propriedades espirituais. Acredita-se que são habitadas e protegidas pelos i-gínn — gênios e espíritos do deserto.
Do ponto de vista prático, a seiva da sangue-de-dragão é utilizada como cicatrizante, anti-inflamatório, no tratamento de irritações da pele e de problemas gastrointestinais, e ainda como verniz.
Seca, fome e resistência
Em Socotra, a terra endurece sob uma escassez crônica de umidade. A secura é extrema. O solo, pedregoso. O cultivo de alimentos é muito desafiador.
Na seca feroz que tomou conta da ilha no final dos anos 1960, os Socotri enfrentaram situações dramáticas.
Na época, Hoda Qasim, de 75 anos, era adolescente. Diz ela: “Comíamos raízes selvagens cozidas. Caçávamos lagartos. Fazíamos fogo com gravetos e palha. Não havia fósforos”.
Hoda vivia com a família numa caverna — algo comum em Socotra até os anos 1990. Além de oferecer abrigo seguro, as cavernas mantêm em seu interior uma temperatura agradável, não menos do que 18ºC nas noites mais frias e não mais que 24ºC nos dias mais quentes.
Islã quase politeísta
Antes da dominância islâmica, o povo Socotri era politeísta e cultuava espíritos associados a cavernas, montanhas e, especialmente, à árvore sangue-de-dragão. Os pastores ofereciam sacrifícios de sangue em louvor às entidades.
Hoje, nas altas montanhas, regiões distantes do centro da ilha, algumas comunidades mantêm rituais nos quais animais são sacrificados, mas agora em honra a Alá. Predomina uma espécie de “islã sincrético” e a crença nos espíritos da natureza continua viva.
“Fazemos sacrifícios para garantir que as cabras engordem e tenham cabritos fortes”, diz o pastor Ahmed Salem.
Como falar com as cabras
Antes de voltar para casa levando de volta o rebanho, os pastores cantam para chamar as cabras que estão mais distantes. “É assim que falamos com elas”, diz Ahmed Saad.
Isso não é uma escultura!
É uma estalagmite que pode ser vista dentro da caverna de Ghiniba, localizada no Planalto de Diksam, na parte central da ilha de Socotra. A caverna é um marco geológico impressionante. É a maior do arquipélago, com extensão comprovada de 13,5 quilômetros. Da sua “porta”, vê-se no horizonte o Mar Arábico.
Chopin com Bach
As rosas-do-deserto de Socotra são de um tipo endêmico. A separação geológica da ilha do continente africano, há cerca de 20 milhões de anos, favoreceu a evolução isolada de espécies vegetais singulares.
Do ponto de vista biogeográfico, as essas árvores são parte do que os botânicos chamam de flora paleoendêmica. Ou seja: vêm de linhagens antigas preservadas em um refúgio natural.
Na paisagem, elas são como um floreio de Chopin numa sinfonia de Bach.
Pelada na autoestrada
Como são poucos os automóveis que trafegam nas raras estradas asfaltadas de Socotra, não há problema em parar no meio de uma autoestrada para passar meia horinha batendo bola.
As águas teatrais dos cânions dramáticos
Em Socotra, a paisagem não se oferece de imediato. Ela exige deslocamento, calor, sede e um certo pacto silencioso com o tempo geológico. A ilha parece ter sido talhada pela paciência da água: planaltos elevados, fendidos por gargantas profundas, conduzem o olhar — e o corpo — sempre para baixo, em direção a leitos secos que só ganham voz quando as chuvas decidem romper o silêncio.
Caminhar por esses cânions é avançar por um território onde tudo sugere contenção, economia de gestos, sobrevivência no limite. Mas é justamente nesse ambiente severo que a água, quando aparece, assume contornos quase teatrais. No interior do Cânion Kalysan, depois de curvas apertadas e paredes de pedra que filtram o sol, surge uma piscina improvável: profunda, com variados tons de verde, encaixada como um segredo bem guardado. A superfície imóvel contrasta com a aspereza da rocha ao redor. Ali, o corpo esquece por alguns minutos a aridez do caminho e compreende, sem esforço, por que a água é o verdadeiro eixo simbólico da ilha.
Mais acima, no planalto de Homhil, a experiência se radicaliza. A piscina natural de Homhil, suspensa sobre o vazio, não apenas refresca: ela reorganiza a escala do mundo. À frente, o mar surge distante, quase irreal; atrás, o planalto ressequido reafirma a dureza do território. É a mais espetacular da ilha não pelo tamanho, mas pela posição — um espelho de água no limite entre a pedra e o abismo, onde Socotra parece, por um instante raro, recompensar quem aceitou atravessá-la sem pressa.
Onde a pesca encontra a palavra
Na vila de Halah, encontro Hadeed Saad, líder comunitário e um dos anciãos de Socotra que mantêm viva a tradição da poesia oral. Pescador de 60 anos, pai de dez filhos, atravessou três divórcios e fases de extrema escassez, quando os furacões afastaram os peixes e a sobrevivência dependia de pequenos caranguejos recolhidos na costa. Nossa conversa acontece no galpão onde são guardados os equipamentos de pesca. Ali, ao longo de algumas horas, juntam-se vários jovens, curiosos e atentos, interessados em acompanhar a entrevista — apenas homens; considera-se inadequado que mulheres presenciem esse tipo de conversa.
O que há de melhor na ilha? A vida em comunidade: “estamos juntos o tempo todo, conhecemos uns aos outros”. E o que imagina haver de bom no Ocidente? “Nunca estive lá, mas penso que seja a chance de viajar pelo mundo”.
No socotri, língua semítica falada em Socotra, Saad declama um poema sobre um jovem apaixonado, dividido entre o desejo de casar e o temor de não conseguir oferecer à amada a vida que ela merece.

























































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