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Expedição “Quando a Terra Sussurra”

  • kaike Nanne
  • há 5 dias
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 2 dias


Uma expedição entre povos ancestrais


O Vale do Omo foi o destino do segmento etíope da expedição Quando a Terra Sussurra, que também percorreu comunidades ao redor do Lago Turkana, no Quênia. A fotógrafa Kity Ramos, o fotojornalista e editor Valdemir Cunha — diretor do projeto — e eu visitamos aldeias de povos originários que preservam tradições ancestrais e rituais milenares.

 

Na primeira imagem, nós três estamos às margens do Rio Omo, principal artéria de vida da região, território de dezesseis dos 86 grupos étnicos da Etiópia. Em outra fotografia da sequência, Kity e eu aparecemos com o rosto pintado pelos Suri, povo que habita colinas e vales de difícil acesso. Há ainda um registro em que estamos com parte da equipe responsável pela logística em campo.




Pernas-de-pau para trabalhar e se divertir


Há séculos, os Banna recorrem às pernas-de-pau para avistar à distância animais do rebanho extraviados no capim alto e alcançar frutas em galhos de árvores espinhentas. Não raro, a destreza também se converte em diversão.




A tempestade, o jazz e o estranhamento


O deserto voa na horizontal contra nós. Ataca com selvageria. A nuvem de areia parece infinita. Em poucos segundos, a poeira gruda na pele, fecha os poros, invade narinas e ouvidos, boca e frestas entre dedos e unhas. Através de um véu de suor, os olhos tateiam sombras dançantes sob a luz âmbar do pré-crepúsculo. As mãos em concha na linha das sobrancelhas ajudam a entrever as formas orgânicas: crianças que pulam, brincam e fazem gestos de luta, mulheres que deslizam com galões de água na cabeça, cabras vagarosas à procura dos raros arbustos. Mas a cegueira retorna rapidamente, tamanha é a massa de poeira que força os olhos a se fecharem. A secura é implacável. O calor, feroz.


Estamos na aldeia de Lomhe, nos domínios do povo Dassanech, no extremo sudoeste da Etiópia, na fronteira com o Quênia e o Sudão do Sul. Consigo enfim escapar da tempestade de areia e me refugio num dos carros da expedição. Gravo esse vídeo curto, no qual o trompete de Chet Baker, ecoando dentro do Land Cruiser, parece deslocado daquele cenário. Talvez seja justamente isso: um som estrangeiro tentando dialogar com um lugar onde tudo insiste em ser áspero, antigo e essencial.




O que é a beleza?


Para os Karo, grupo étnico cujo território fica nas proximidades do Rio Omo, o conceito de beleza não é associado a atributos físicos, mas a vestes e ornamentos, como as pinturas feitas com tinturas minerais. Quanto mais elaborada a ornamentação, maior o reconhecimento da beleza.




O salto sobre touros e as chibatadas


O Ukuli Bula é o festival mais importante do povo Hamar. Trata-se de um evento de grande escala, composto por diversos rituais. Um deles é o salto sobre touros, que marca a passagem dos jovens para a vida adulta — uma vez cumprida essa etapa, o rapaz estará habilitado a iniciar a busca por uma noiva.

 

Em outro ritual, as mulheres se submetem a chibatadas com cipós, gesto associado à demonstração de lealdade aos homens e de pertencimento à comunidade. Vejo diversas garotas pedindo golpes mais fortes. Elas exibem com orgulho as cicatrizes deixadas pelas chibatadas e não demonstram dor. Parecem-me, em muitos casos, entorpecidas pela grande quantidade de arak artesanal consumida durante a festa.




Os colares da poligamia


O adorno de maior destaque entre as mulheres Hamar é um pesado colar metálico, dotado de um grande cilindro saliente que se projeta para a frente. Trata-se de uma peça fechada, fixada por um ferreiro, que não pode ser removida. O colar indica que a usuária é uma primeira esposa — como no caso das mulheres que aparecem nas duas primeiras fotos desta sequência. Elas exibem ainda dois outros colares metálicos abaixo daquele que traz o cilindro, sinal de que seus maridos têm outras duas mulheres.

 

Na imagem final, da esquerda para a direita, vê-se: uma primeira esposa; uma menina prometida pela família a um futuro marido — razão pela qual usa um colar de contas de casca de árvore, ajustado firmemente ao pescoço; e uma segunda esposa, que porta dois colares metálicos, mas sem o cilindro.




Seca de proporções bíblicas


No registro de Kity Ramos, o fotógrafo Valdemir Cunha e eu cruzamos o rio Wazo, afluente do Omo, apenas com uns tímidos filetes de água nessa época do ano — estamos em novembro. Somos seguidos por crianças da etnia Hamer.

 

Pastores Hamer e mulheres das comunidades vêm de aldeias distantes para matar a sede dos animais, coletar água e tomar banho. O cenário remete à seca anunciada pelo profeta Elias no livro bíblico de de I Reis: “Nem orvalho nem chuva haverá”.




Pausa para o futebol


Não dá para fugir da pelada quando as crianças Nyangatom jogam no seu pé a bola feita de farrapos.




Cinzas, leite e sangue


Os pastores Suri começam o dia aplicando uma camada de cinzas sobre o corpo nu. As cinzas funcionam como repelente contra insetos. Como passam vários dias conduzindo o gado por pastos distantes — às vezes a até quarenta quilômetros das aldeias —, a alimentação disponível é aquela que os animais oferecem: leite e… sangue. O sangue bovino, que os pastores bebem, é rico em ferro heme, a forma de ferro mais facilmente absorvida pelo organismo humano.

 

Os meninos são introduzidos às atividades de pastoreio muito cedo. Borkozo, de presumíveis 7 anos — “presumíveis” porque os Suri não costumam registrar os nascimentos —, começou a aprender a técnica há cerca de um ano. No carrossel de imagens, Borkozo é o menino que aparece envolvido em um cobertor azul com detalhes em verde.




Quando o corpo é paisagem


As mulheres Suri pintam o próprio corpo como quem escreve uma frase destinada a durar apenas algumas horas. Argilas claras, carvão, cinzas — minerais arrancados do chão que pisam — traçam linhas que não obedecem a um modelo fixo, mas ao humor do dia, à luz da manhã, à vontade de ser vista. “Esta terra me pertence; este é meu território”, disseram-me numa das aldeias que visitei, explicando por que o corpo se cobre de elementos minerais. Na cabeça, flores recém-colhidas — frágeis, intensamente presentes, condenadas a murchar antes do entardecer. Nada ali pretende durar. A beleza, entre elas, não é acúmulo nem permanência, mas gesto: algo que se cria, se exibe e se deixa desaparecer. O corpo torna-se paisagem, e a paisagem, ornamento; pintar-se é afirmar a própria existência no agora e inscrever o território, ainda que por instantes, sobre a pele.




Entre pedras e grãos: a cozinha cotidiana dos Suri


Na aldeia Suri que fica nas proximidades da Vila de Kibish, no extremo sul do Vale do Omo, as mulheres ralam na pedra o sorgo e o milhete. A farinha fina resultante do processo é utilizada no preparo do caldo grosso que, com diferentes níveis de fermentação, dá origem ao mingau consistente e à cerveja artesanal consumidos diariamente.

 

O migau é o principal prato de resistência dos Suri. A ele, são adicionados legumes ou vegetais folhosos, como a moringa — uma espécie de ora-pro-nóbis africana de porte arbóreo, que os locais chamam de “árvore-couve”, importante fonte de proteína.

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