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Leitores comentam o livro “Como dançar com os mortos”

  • kaike Nanne
  • 20 de mai.
  • 5 min de leitura

Enor Paiano

Especialista em Digital Marketing

 

Crônica de lugares fantásticos

 

Não é fácil colocar "Como dançar com mortos" em alguma caixinha. É uma pesquisa ampla e profunda sobre sociedades tradicionais, que ainda vivem de acordo com seus costumes ancestrais nos dias de hoje, mas não se assemelha em nada ao esforço de catalogação da etnografia do século 19, nem mesmo às generalizações da antropologia do século 20. Apesar da larga experiência do autor no jornalismo, não é tampouco uma reportagem; Kaíke Nanne pontilha o texto com observações, digressões e toques pessoais que a boa técnica jornalística manda não misturar com a reportagem. Na Introdução o autor avisa que há várias formas de se aproximar do livro: “exercício intelectual”, “inventário narrativo” ou mesmo uma “jornada de autoconhecimento” — o contraste com as práticas milenares narradas abriria espaço para revermos nossas próprias formas de viver.

 

Gostaria de trazer ainda mais uma hipótese: “Como dançar com os mortos” é uma livro de crônicas. O gênero, absolutamente brasileiro, até onde eu sei foi melhor definido pelo escritor italiano Italo Calvino em “Seis propostas para o próximo milênio”. A crônica seria definida pelos itens abaixo:

• a opinião pessoal

• uma perspectiva muito definida

• o subjetivismo

• o realismo

• um tema que norteie todo o texto

• o talento para a conversa fiada e livres associações

• o talento para a flânerie e para a vagabundagem

• o uso de anedotas e historietas

• o tom leve, de conversa, de papo furado•

• dados e informações em flerte com o relato jornalístico

• lembranças e sonhos em flerte com o relato memorialístico

• o olhar para as coisas como se em visita a um país estrangeiro

• a percepção aguda sobre detalhes aparentemente inúteis

• uma distraída busca por epifanias

 

Arrisco dizer que “Como dançar com os mortos” gabarita nesse exame.

 

O autor não fica solando nem determinando regras, mas sua opinião aparece de maneira delicada. Ao visitar o museu Rimbaud, em Harar, na Etiópia, Nanne cita uma carta do poeta francês à sua mãe, em 1890: “Quanto a Harar não há nenhum cônsul, nenhuma agência de correio, nenhuma estrada; chega-se de camelo, e vive-se exclusivamente entre os negros. Mas enfim somos livres, e o clima é bom”. Essa é a citação. O comentário do autor é econômico: “Enfim somos livres”.

 

O talento para a conversa fiada, a flanerie e a vagabundagem aparecem em muitos trechos, mas fico num só: no Butão, o autor seguia, com seu intérprete, para um museu, repartição ou algo que o valha, quando percebeu certa movimentação pelo caminho. Descobriu se tratar de um casamento, e não teve dúvidas de abandonar o compromisso anterior e entrar de bicão na festa, para desespero do intérprete.

 

Quer ver o uso de anedotas? Ainda no Butão, Nanne descreve, sem esconder um risinho sorrateiro, como as casas são adornadas por enormes falos eretos, alguns inclusive ostentando uma ejaculação — naquela região acredita-se que as imagens atraem fertilidade e boa colheita.

 

O único ponto da cartilha de Italo Calvino que o livro não acerta é “olhar as coisas como se em visita a um país estrangeiro” — afinal de contas, todas as dezenas de lugares visitados são efetivamente lugares estrangeiros, e que se unem apenas na qualidade de oferecerem visões de mundo muito diferentes das nossas.

 

Um daqueles cronistas mineiros, não me lembro qual, dizia que a boa crônica passa de uma assunto a outro como um macaco, que vai de galho em galho sem demonstrar nenhum esforço. Nanne começa a contar da geografia do Monte Roraima, pula de galho falando de Macunaíma — trata-se de um personagem do folclore daquela região, recuperado por Mário de Andrade —, e depois conta sua experiência com uma tribo dali.

 

Se a crônica precisa ter epifanias, vou narrar só uma, para não dar spoiler. Nas montanhas do Mali, numa noite escura ao redor de uma fogueira e bebendo a cerveja artesanal lá deles, Kaíke Nanne descobre que nesse happy hour ninguém fala a sua língua — e que isso não faz a menor diferença.

 

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Eduardo Rosa Pedreira

Doutor em Teologia

 

Um livro mandatório. Uma leitura obrigatória. Um texto encantador

 

Esse já é um dos livros mais importantes que li em toda minha vida. Sua tese central é cativante: será que aqueles que vivem em sociedades desprezadas e ou desconhecidas por nós não lidam com as grandes questões da existência de maneira muito sábia?

 

Será que a sabedoria dos seus ritos, das suas mitologias, não são muito mais avançadas do que nosso suposto progresso consegue perceber? Será que aquilo que seus olhos veem não podem nos iluminar hoje?

 

Partindo daí, Kaíke nos faz mergulhar, com a maestria de seu texto — profundo, simples, engajante —, num verdadeiro tesouro de sabedoria ancestral. Sim, acho mesmo que se nós não formos capazes de ouvir as vozes da nossa ancestralidade, estaremos condenados a viver uma existência muito mais empobrecida.

 

Esse é um texto mandatório para o nosso tempo! De uma beleza encantadora. De uma profundidade inspiradora. De uma erudição invejável. Que bom que me encontrei com esse livro!

 

 

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Pedro Almeida

Brigadeiro do Ar

 

Leitura incontornável

 

Livro sensacional e absolutamente incontornável para quem quer crescer em empatia, alteridade e deseja aprofundar o olhar sobre povos originários, além dos grandes temas da existência. Narrativa primorosa, fluida e totalmente embasada. Recomendo com ênfase!

 

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Rafael Moreira

Advogado Especialista em Direito Constitucional

 

Um espelho crítico da sociedade ocidental

 

Ao ler “Como dançar com os mortos” tive a impressão de estar diante de uma obra que fala menos sobre a morte em si e mais sobre a forma como escolhemos viver diante dela.

 

Kaíke Nanne conduz o leitor por diferentes culturas, rituais e tradições ancestrais, sempre com uma escrita acessível, sensível e envolvente. O livro não tem a pretensão de ser um tratado acadêmico de antropologia, e talvez aí esteja uma de suas maiores virtudes: ele comunica temas profundos com leveza, sem perder densidade humana.

 

O que mais me chamou atenção foi a maneira como a obra funciona como um espelho crítico da sociedade ocidental. Ao observar povos que lidam com a morte de modo mais integrado à vida, somos levados a perceber o quanto tentamos esconder o envelhecimento, o silêncio, o luto e a finitude.

 

As passagens sobre rituais e experiências de viagem não aparecem apenas como curiosidades culturais. Elas provocam uma reflexão mais profunda sobre o tempo, o corpo, a ancestralidade e o sagrado. Em vez de oferecer respostas prontas, o livro amplia nossas perguntas.

 

Como leitor, senti que a obra não busca domesticar a morte por meio de explicações racionais excessivas. Ela nos convida, antes, a encará-la como parte inevitável da experiência humana.

 

É verdade que quem procura um estudo antropológico mais técnico e sistemático talvez sinta falta de maior aprofundamento teórico. Mas essa não parece ser a proposta central do livro. A força da obra está na crônica, no olhar jornalístico e na sensibilidade narrativa.

 

Por fim, “Como dançar com os mortos” é uma leitura instigante, delicada e necessária. Um livro que, ao falar da morte, nos devolve uma pergunta essencial: estamos realmente sabendo viver?

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